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Um Iron Maiden muito à vontade


Poucas bandas veteranas continuam capazes de causar tanta comoção como o Iron Maiden. Desde a volta de Bruce Dickinson (Vocal) e Adrian Smith (Guitarra), na passagem para os anos 2000, cada lançamento da Donzela de Ferro é acompanhado em clima de Copa do Mundo.

Essa relevância é resultado de um meticuloso trabalho de reposicionamento nos últimos 20 anos e que se intensificou a partir de 2008, quando a banda se estabeleceu no mundo como a maior banda de Heavy Metal em atividade (ao lado do Metallica), até mesmo nos Estados Unidos — onde nunca foram tão prestigiados quanto agora.

Para isso, colocaram em prática uma eficiente estratégia de alternar turnês baseadas ora em discos novos, ora em períodos clássicos da banda — aqueles lançados na década de 1980.

Já na parte sonora, os britânicos sexagenários passaram a adotar um direcionamento mais progressivo, alternando momentos calmos — às vezes com longas introduções –, com ataques mais explosivos e refrãos cativantes. É uma adaptação de uma fórmula há muito datada, mas que permite manter intacta a identidade do grupo e dar uma certa oxigenação ao som.

Foi com essa tática que a banda britânica entrou no top 10 da Billboard em 2006 pela primeira vez, e obteve suas melhores colocações nas paradas dos EUA com os discos The Final Frontier (2011) e The Book Of Souls (2015), ambos alcançando a quarta posição na principal lista das paradas.

O melhor em 30 anos?

Circula há tempos um ditado de que o fã de Iron Maiden é o mais insuportável do mundo musical, perdendo somente para fãs de Los Hermanos. Ou seja, não é surpresa que a imprensa especializada não só no Brasil, mas principalmente aqui, tenha apontado o mais novo disco da banda, Senjutsu (Warner), como um clássico instantâneo.

Se é clássico, somente o tempo dirá. Mas é claramente o esforço mais honesto e inspirado da banda desde A Matter Of Life And Death (2006), um de meus preferidos da safra pós-2000. Outras críticas apontavam que o disco seria o mais ambicioso até agora. É uma concepção que não cabe muito: The Book Of Souls, o anterior, era tão longo e complexo quanto Senjutsu.

A diferença aqui é que a banda parece menos preocupada em causar impacto com trilhas de mais de 10 minutos, e mais focada em boas canções. Isso torna o disco cativante e muito mais coeso que o antecessor.

A força da experiência

Senjutsu é o segundo álbum duplo do Iron Maiden. Em seus 80 minutos, a banda nos leva a uma viagem por todas as características que fizeram de si tão cultuados. Introduções acústicas, baixos galopantes de Steve Harris, a bateria certeira de Nicko McBrain e as guitarras gêmeas de Smith, Dave Murray e Janick Gers.

Pode parecer previsível, mas é neste instante que a banda nos surpreende. Há momentos tão inspirados, e até mesmo reflexivos, que só quem já passou por tantos altos e baixos na carreira — como é o caso do Iron Maiden — é capaz de transmitir.

Reflexo disso é o próprio Bruce Dickinson. Diferente dos esforços anteriores, optou por vocais mais graves em Senjutsu, em vez de exibir seu alcance vocal a todo instante — algo que incomodou muito em The Book Of Souls. Isso resultou em linhas melódicas mais ricas e cheias de inspiração.

Talvez a maior inovação nesse novo disco seja essa: uma banda que não tem medo de ousar dentro da própria fórmula, mesmo que saibamos na ponta da língua os elementos, cacoetes e clichês que estamos prestes a escutar.

Pontos negativos

Ainda que a maioria das músicas em Senjutsu sejam excelentes, há pontos que demandam atenção. Do lado negativo, a produção do disco é certamente o destaque. É inexplicável o fato de uma banda com três guitarristas soar como música de Karaokê em alguns momentos.

A bateria de McBrain poderia ser melhor destacada, assim como a ambiência do disco. Esta deveria ser mais impactante caso a banda desistisse de usar sintetizadores manjados de teclado e optasse por alternativas mais modernas para reproduzir tons orquestrais.

Isso, na verdade, é explicado pelo próprio produtor do Iron Maiden, o parceiro de longa data Kevin Shirley. Apesar de ser um nome experiente, na Donzela de Ferro possui um papel mais secundário, já que o Harris costuma trabalhar a construção dos discos com — o perdão do trocadilho — mão de ferro.

A produção — ou falta de — é uma constante nas críticas em relação à banda. Seja por não ter autonomia para intervir criativamente nas composições, ou por não ter o hábito de “cortar gordura” quando necessário.

Vida longa

Mesmo assim, Senjustu entra na discografia da banda como um disco que reflete um grupo que nunca soou tão honesto ou disposto a mostrar seu lado mais vulnerável — embora nada pareça realmente muito inovador.

E é justamente por isso que Iron Maiden continua tão relevante após tanto tempo: simplesmente fazem o que querem, sem levar muito em conta eventuais repercussões entre fãs ou críticos. E aqui parecem particularmente à vontade com essa realidade.

Por Nestor Rabello

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