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Qual o próximo passo da Netflix nos games?


Às vésperas do evento inédito — ainda que tímido — do avanço de uma das maiores companhias de entretenimento da atualidade a uma nova área, é fácil cair na falsa compreensão de que a caminhada da Netflix aos games é um evento deslocado, motivado apenas pela atual perda de assinantes. Esse fato pode até ter sido determinante para antecipar esse movimento, mas não é de agora que a empresa estadunidense mira sua atenção aos videogames.

Em 2018, muito antes do anúncio feito em julho de expandir os negócios ao mercado de games, a vermelha já testava novas formas dentro de sua plataforma. O inventivo episódio de Black Mirror, Bandersnatch, permitiu que os espectadores passassem a tomar decisões que afetassem o rumo da história, no melhor estilo novela interativa de RPG dos anos 80/90.

A investida em produções continuou após esse primeiro experimento, e passou a ser voltada a públicos diferenciados dentro da plataforma. Em 2019, o modelo de série interativa passou a fazer parte do primeiro original da empresa, Você Radical, com o aventureiro Bear Grylls do conhecido À Prova de Tudo. A série foi feita aos moldes do show que deu fama ao aventureiro. Dessa mesma forma, a Netflix trouxe ao público infantil a série interativa Minecraft: Story Mode.

A mais recente produção original a ter um papel interativo foi Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs the Reverend, lançada em maio do ano passado, onde os espectadores da conhecida série original de humor da Netflix puderam fazer parte da história. Esse último é o ponto fundamental dessas experiências.

Videogames são nada mais do que tomar as rédeas da história, sendo o jogador — ou fazendo-o acreditar — o regente dos rumos dela. E, de certa forma, isso está sendo feito.

Em meio a todas essas novidades, a Netflix também já mexia suas peças mais próxima ao núcleo da indústria gamer. Durante a transmissão Nintendo Direct na E3 de 2019, um anúncio entre os tantos daquele evento foi ofuscado pela informação de que a sequência mais aguardada da atualidade — The Legend of Zelda: Breath of the Wild 2 — estaria em desenvolvimento.

O que passou despercebido foi que na mesma transmissão, a empresa estreou como uma ‘publicadora’ com o anúncio do jogo Dark Crystal: Age of Resistance Tactics, um jogo de estratégia que sairia juntamente com a estreia de série homônima em agosto daquele ano.

O jogo, desenvolvido por um estúdio do Texas, o BonusXP, foi o primeiro atrelado à cia vermelha. Pouco tempo depois, a empresa anunciou um título dos mesmo produtores, Stranger Things 3: The Game, o primeiro com uma propriedade intelectual da companhia. Assim, 2019 se tornou um ano derradeiro para o posicionamento da Netflix neste mercado.

Mas voltamos ao Bonus XP mais para frente.

BIZNESS

Há poucas semanas atrás um usuário do Twitter postou uma captura de tela que indicava a possibilidade de baixar dois jogos no aplicativo mobile da Netflix. Ambos jogos de Stranger Things. Apesar do download ter sido restrito aos usuários da região da Polônia, foi um indicativo de que num primeiro momento a companhia miraria para o mercado mobile.

Esse, carro-chefe do dinheiro nos jogos, pelo menos aqui no Brasil, segundo estudo Pesquisa Game Brasil deste ano.

Posteriormente o perfil de assuntos ‘geek’ da empresa no Twitter anunciou que os joguinhos mobile dentro do aplicativo não significariam aumento na mensalidade dos assinantes e não teriam anúncios ou possibilidade de compra dentro dos jogos — outro indicativo sobre qual pode ser a estratégia da companhia neste sentido.

Esse burburinho foi o indicativo inicial de uma estratégia definida e anunciada para acionistas no levantamento fiscal trimestral da companhia no final de julho. Neste, foi também apresentado o número do cancelamento de 430 mil assinaturas no mercado norte-americano no segundo trimestre de 2021, período em que a HBO Max e Disney+ intensificaram suas atividades. Não é concreto, mas neste contexto a expansão para os games, mesmo que tímida, pode significar uma retomada dessas perdas. Observação feita pelos próprios porta-vozes da companhia.

“Vemos os jogos como mais uma nova categoria de conteúdo para nós, semelhante à nossa expansão em filmes originais, animação e TV não codificada”, disse um deles durante o anúncio em julho. O COO da empresa, Greg Peters, afirmou em entrevista posterior ao evento que o esforço focado em games começaria “relativamente pequeno”, preferindo produtos licenciados para desenvolvedoras, com títulos relacionados às produções originais.

É curioso observar a variedade de tentativas de aproximação com o mercado gamer por diversos lados — isso porque nem mencionei as variadas adaptações já estreadas e em desenvolvimento dentro da plataforma, como Castlevania, Dota 2, Resident Evil e a animação de Cuphead. Mas, dentro dessa bolha dos videogames, onde os títulos da Netflix se encaixariam?

Pelo que já temos como indicativos, os jogos interativos seriam semelhantes às visual novels, gênero proeminente principalmente no mercado oriental — e com diversos e excelentes competidores.

Por outro, a permissão de jogos mobile em aplicativos é uma abertura positiva, mas esbarra em alguns limitadores já anunciados pela própria empresa. Como a limitação de ganhos com anúncios ou compras dentro dos aplicativos — principal fonte de lucro neste segmento. A possibilidade de licenciar jogos de séries originais é o mais fraco dos estratagemas. Convenhamos que há muito tempo as séries da Netflix nem de perto esbanjam qualidade.

E o estúdio do Texas, Bonus XP, neste contexto? Segundo o site dos desenvolvedores, estão trabalhando em um jogo inédito triple A (jogos mais ‘parrudos’) para PC e consoles da próxima geração. Seria esse o próximo passo para a empresa vermelha? 

Por Álvaro Viana

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