Chegamos aos 20 anos dos atentados do 11 de setembro neste sábado, num momento particularmente delicado para o Afeganistão. Os norte-americanos bateram em retirada, abrindo espaço para a tomada do poder pelo Talibã.
O consenso entre especialistas é de um fracasso dos EUA no país, após trilhões de dólares gastos e a um “custo” humano de mais de 241 mil mortes, segundo levantamento da Universidade de Brown.
A data dos ataques não só é emblemática por ter mudado os rumos da história moderna, mas também por suas repercussões na indústria do entretenimento — até mesmo a série 24 Horas chegou a ter lançamento adiado em 2001 por conta dos ataques.
Aqui no loady decidimos fazer uma seleção de obras que, se não abordam diretamente os ataques de 11 de setembro, versam sobre os eventos posteriores que ditariam a geopolítica dali em diante. Confira:
Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror (Netflix)
No início deste mês, a Netflix lançou uma série documental de cinco capítulos sobre tudo que envolve o 11 de setembro e a guerra travada pelos EUA no Oriente Médio.
A produção do premiado cineasta Brian Knappenberger nos leva a uma jornada para entender os ataques e as tomadas de decisão em Washington que mudaram o mundo, apresentando entrevistas com ex-autoridades diretamente ligadas aos eventos.
O documentário ilustra esse momento da história com personagens como o agente libanês-americano do FBI Ali Soufan, passando por assessores de George W. Bush, o ex-primeiro-ministro afegão Gulbuddin Hekmatyar e outros líderes da região.
As cenas são impactantes. O primeiro episódio evidencia passagens fundamentais da época, como o momento em que Bush fica sabendo dos ataques, até o instante em que decide invadir o Afeganistão. Algumas cenas mostram as reuniões que geraram leis draconianas aprovadas na gestão Bush, acompanhamos o infame campo de tortura em Guantánamo, além do monitoramento em que a Casa Branca executou uma operação ilegal que levou à morte de Osama Bin Laden. Isso só para citar algumas passagens.
Ao fim, confesso que é uma obra difícil de digerir. Principalmente quando são escancarados os interesses por trás da Guerra, que foi iniciada como resposta direta aos ataques, mas findou em algo sem propósito. Uma ótima escolha para quem quer saber mais do assunto.
The Looming Tower (Prime Video)
A minissérie assinada pela Hulu, mas distribuída no Brasil pela Amazon Prime Video, é um arraso. Não falta ação, suspense e drama num retrato bastante ponderado sobre um aspecto ainda mais obscuro que os ataques em si: a guerra interna de informações entre o FBI e a CIA.
Pela série, baseada no premiado livro do jornalista Lawrence Wright, não é possível saber ao certo quais seriam os desdobramentos caso as duas agências tivessem cooperado nos anos que antecederam o 11 de setembro. No entanto, é possível vislumbrar que o fanatismo não está circunscrito somente aos radicais islâmicos ou ao Talibã.
Com elenco estelar, temos Jeff Daniels dando vida ao ex-chefe do FBI, John O’Neill, e Peter Sarsgaard representando Martin Schmidt, o chefe da Estação da CIA responsável por rastrear Bin Laden e a Al Qaeda.
Muitos dos personagens, como O’Neill e o fanático Schmidt, realmente existiram — Schmidt, inclusive, é baseado em Michael Sheuer, figura insana que hoje propaga teorias da conspiração nas redes. Temos também o próprio Ali Soufan (Tahar Rahim), um dos entrevistados do documentário que citamos acima. Imperdível.
Vice (Prime Video)
Adam McKay é um dos cineastas que mais vale a pena acompanhar atualmente. Começou muito bem no hilário O Âncora (2004), e ganhou prestígio ao retratar — também hiláriamente — a crise do subprime ocorrida em 2008, em A Grande Aposta (2015). Em Vice (2018), McKay retrata a vida do inescrupuloso Dick Cheney, tido como um dos mais poderosos vice-presidentes dos EUA.
Assistir a Vice é uma boa amarração de todo esse material. Republicano, avesso aos holofotes e com grande habilidade para articular nos bastidores, Cheney foi figura central na resposta norte-americana aos atentados do 11 de setembro, assim como na farsa que levou os EUA a invadirem o Iraque em seguida.
Apesar da obscuridade, McKay dá um tom delicioso à obra, que também conta com um elenco estelar com Christian Bale, Amy Adams, Steve Carrell, Sam Rockwell e muitos outros. Uma boa pedida!
War Machine (Netlifx)
A exemplo de McKay, esse filme da Netflix também opta por dar um tom irônico e farsesco à guerra no Afeganistão. Na metragem acompanhamos o general Glen McMahon (Brad Pitt) em seu objetivo de apresentar um relatório da situação no país ao então presidente Barack Obama.
É simplesmente um deleite acompanhar o protagonista ficar cada vez mais descrente com os absurdos políticos da guerra e a falta de qualquer significado compreensível para ela. É quase um Ted Lasso em área de combate. Ainda que seja um retrato irreverente, não deixa de passar um sentimento de melancolia.
O interessante é que McMahon foi baseado no célebre general americano Stanley McChrystal, quando foi levado ao Afeganistão por Obama. Ele, aliás, também é uma figura carimbada no documentário da Netflix “Ponto de Virada”, que citamos logo acima.
Homeland (Globoplay, Star+)
Essa série da Showtime foi a queridinha da crítica norte-americana entre 2011 e 2012, quando fomos apresentados à agente da CIA, Carrie (Claire Danes), no combate a um sempre iminente ataque terrorista nos EUA. Com a ajuda de seu padrinho na agência, Saul Berenson (Mandy Patinkin), ela tenta descobrir se o soldado Nicholas Brody (Damien Lewis) é um infiltrado terrorista no país.
Apesar do roteiro datado — 24 Horas já havia apresentado esse plot paranoico lá em 2001 — o diferencial da série é justamente a abordagem da dualidade na guerra ao terror, as atrocidades cometidas e, por fim, o ritmo quase noir empregado na trama.
Venceu Emmy’s e Globo de Ouro, chegou a ser comparada a The Wire (HBO), e até mesmo Obama se disse obcecado na série, mas foi marcada também por altos e baixos. Sua terceira temporada é cansativa e o seriado passou por alguns reboots para se adaptar à própria mudança do cenário mundial. Ainda assim, vale muito a pena.
Por Nestor Rabello