A cantora britânica Halsey lançou nesta última semana seu principal trabalho até o momento. “If I Can’t Have Love, I Want Power” (Capitol Records) é um daqueles álbuns que costumam ser um divisor de águas na carreira de um artista.
Primeiramente, Halsey sempre foi uma das melhores cantoras pop de seu tempo, desde seu primeiro álbum — o excelente “Badlands” (2015) — passando pelas participações em canções do insosso grupo The Chainsmokers, e indo até o pop punk de Machine Gun Kelly.
Agora, a cantora de 26 anos dá um passo ousado e arriscado. Fica claro aqui o objetivo de conquistar prestígio entre os críticos e se colocar como uma artista diferenciada. Bem, já conquistou a imprensa britânica, o que é um feito por si só. O tradicional The Guardian definiu bem, em sua crítica, o mais novo esforço de Halsey: “um pop muscular”.
O jornal tem razão. Halsey chamou um time de peso para dar vida a seu álbum conceitual: Trent Reznor e Atticus Ross, do rock industrial Nine Inch Nails, assinam e produzem todas as 13 faixas sobre as alegrias e os traumas da gravidez e da maternidade. E grife a palavra “traumas”.
Reznor e Ross não são músicos comuns. É o tipo de dupla que costuma dar um tratamento bem particular em seus trabalhos. Nesse disco, dão um tom pesado, atmosférico, às vezes sufocante e caótico.
E justamente por isso, tudo soa bem cinematográfico. E não à toa. Além do Nine Inch Nails — cujos elementos estão presentes do início ao fim — Reznor e Ross são premiados compositores de trilha sonora. Colaboradores assíduos do cineasta David Fincher, ganharam um Oscar pela trilha de “A Rede Social” (2010) e, recentemente, um Globo de Ouro pela trilha de “Soul” (2020).
A investida tem um sentido lógico. Halsey lançou ao mesmo tempo um longa-metragem, bem “artsy”, com ares ora “Game Of Thrones”, ora Antigo Testamento. Praticamente todas, senão a totalidade das faixas ganharam clipes bem produzidos e estilizados, com estética cult.
Criatura estranha
A investida de Halsey no disco difere-se daquelas tentadas recentemente por artistas do gênero, a exemplo da arrasa quarteirões Taylor Swift e Lady Gaga, que tentam se descolar de uma aura infantilizada — seja fazendo documentários “chapa branca” ou filmes melodramáticos.
Aqui a coisa é mais autêntica. A mudança veio no som. E isso é perceptível logo na primeira faixa, “The Tradition”, que traz os icônicos pianos de Reznor em primeiro plano e uma letra forte, sem rodeios: “Bem, ela conquistou a vida que queria/Agora tudo que faz é chorar”, entoa a cantora.
Numa transição suave, somos apresentados à melhor canção do disco. “Bells in Santa Fe” é uma grande canção. Samplers ao fundo criam uma sensação claustrofóbica. Notas de piano são aplicadas de forma quase monossilábica, criando um sentimento angustiante.
É nessa faixa que Halsey fala mais abertamente de seu trauma: a simples dúvida se ama, ou não, o filho — ou o que representa em sua vida aquela criatura nova, estranha. “Talvez eu possa te segurar no escuro/ você nem vai notar que eu fui embora/ uma ameaça de segunda mão, numa cama de segunda mão”, repete a cantora, numa catarse ao final.
O disco possui outros bons momentos: a busca pela personalidade em “Girl Is a Gun” (uma das melhores); o abuso de remédios no folk de “Darling” (a mais fraca do álbum), e o horror ao corpo em “You Asked For This”.
Pandemônio controlado
Para além das influências industriais, Halsey transita habilmente em gêneros como o Noise Rock, o eletrônico e até o Trip Hop dos anos 1990, entre outros. Mas o faz de forma coesa e natural. Levando em conta a roupagem pop, dá a impressão de estarmos num pandemônio controlado.
É um álbum corajoso e ousado, tanto pelo tema quanto por sua ambição musical. Até por isso, a sensação é que se trata de uma jogada extremamente calculada, que consequentemente eleva o nível para a própria cantora no futuro. Será ela capaz de dar luz a uma cria tão poderosa quanto essa? A ver.
Por Nestor Rabello