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De esnobada a favorita, Succession é excessivamente impecável

Depois de ser esnobada pelas premiações à época em que foi lançada, a segunda temporada de Succession pavimenta o caminho para ganhar status de carro-chefe da HBO nos próximos anos. Uma vingança mais que justa para um seriado sobre uma bilionária família viciada em jogos de intriga e traições.

Levou dois Globos de Ouro neste ano, incluindo melhor série de drama, e soma 18 indicações para o Emmy (ante cinco na primeira temporada), ficando empatada com Ozark (Netflix) em número de indicações para série de drama.

Levando em conta o vácuo deixado por Game of Thrones, atuações e roteiro impecáveis, além do selo HBO de qualidade, Succession é favoritíssima para fazer a limpa no Emmy.

É um momento justo para a série porque é justamente na segunda temporada que a ela toma o telespectador de assalto — fazendo um paralelo, dá um “abraço de urso” como numa aquisição corporativa hostil do mercado financeiro, situação recorrente no seriado.

Nesse sentido, reforça o provérbio de que a vingança é um prato que se come frio: a série é soberba desde o começo, mas foi ofuscada por seriados já consagrados. E, na segunda temporada, reforça todos os lados positivos e conserta algumas deficiências de narrativa.

Sem maquiagem

Em termos de estética e linguagem, a série não poupa esforços em glamourizar a vida dos 1% mais ricos do planeta e se aproveitar do fascínio da sociedade com aqueles que mandam no mundo. Por outro lado, as referências da vida real da série são fortíssimas, e os produtores não fazem questão de esconder de onde as tiraram.

O enredo, por si só, é clássico e se apoia nas premissas tradicionais das intrigas shakespearianas (Hamlet e Rei Lear) e Édipo Rei. Na vida real, é claramente inspirada no inescrupuloso magnata da mídia Rupert Murdoch, acionista majoritário da News Corporation, dona da Fox Corporation e subsidiárias.

Em Succession, Logan Roy (Brian Cox, que levou o Globo de Ouro pelo papel) é Rupert Murdoch e Waystar Co é a News Corporation. Logo de início somos apresentados ao tema: o rei do conglomerado faz 80 anos e inicia-se a corrida dos filhos por seu trono e o comando de seu poderoso império.

A disputa familiar gira em torno de opções bem problemáticas para qualquer empresa: o louco por poder Kendall Roy (Jeremy Strong); a animal política Roy (Sarah Snooke) e o insano Roman Roy (Kieran Culkin, impecável). Connor Roy (Alan Ruck) corre por fora, mas serve como recurso à série para fazer referência à elite intelectual norte-americana. Todos de perfis diferentes, mas compartilham entre si o alienamento, a riqueza e a falta de escrúpulos.

Sem favoritos

A verdade é que Succession encontrou uma roupagem de grife para abordar dois dos temas mais clássicos da dramaturgia: inveja e vingança. E ela consegue isso de forma impecável, apoiada, sobretudo, em diálogos divertidíssimos e inteligentes.

É nessa dinâmica do discurso que os personagens ganham cor e a crítica ao mundo irreal que vivem os bilionários se torna evidente. Em uma cena num restaurante grã-fino, por exemplo, Tom (Matthew Macfadyen) resume bem ao primo pobre da família a importância do dinheiro:

“O ponto sobre ser podre de rico é o seguinte: é como ser um super-herói, só que melhor. Você faz o que quiser, as autoridades não podem realmente te impedir. Você usa uma fantasia, mas é feita pela Armani e não te deixa com cara de otário”, reflete.

E é justamente no ponto forte da série que ela escorrega. Repletos de sarcasmo e cinismo, há pouco espaço nos diálogos para mostrar as vulnerabilidades dos personagens, o que atrapalha o desenvolvimento dos mesmos.

Ponto de equilíbrio

Mas a segunda temporada equilibra um pouco a balança e, talvez por isso, tenha ganhado mais destaque no meio. A família, já em erupção, começa a orbitar em traumas e as razões para que eles tenham ocorrido. Não por a caso, é na atual temporada que os personagens passam a ser testados na história.

Kendall, favorito para tomar o lugar do pai, sofre um evento traumático e passa a enfrentar demônios internos; Roman toma pé da realidade do mundo depois de ser obrigado a “começar de baixo” após um diálogo sobre o preço do leite; Siobhan decide abandonar a política ao vislumbrar a possibilidade de assumir o comando do conglomerado. Connor… Bem, Connor tem uma crise de mania e decide concorrer à presidência.

Coincidentemente, é na atual temporada que o segmento de mídia da empresa — conhecida por ser sensacionalista e conservadora (como a Fox News) — tenta comprar a rival, que é o oposto: possui credibilidade, seriedade e responsabilidade. A grande trama, portanto, faz um paralelo interessante com a mudança de perfil dos vingativos irmãos.

No entanto, o que a série nos deixa claro — mas esconde para os filhos — é que para Logan Roy há apenas um filho favorito: seu próprio império. Esse fator contribui para alimentar a tensão entre os personagens em disputa pelo reinado do pai, e transforma a série numa releitura surpreendente de um enredo clássico.

Succession inicia o caminho para se tornar a série indispensável da televisão. Principalmente por nos mostrar tudo que odiamos: uma história viciante sobre seres humanos horríveis fazendo coisas horríveis em uma família horrível.

Por Nestor Rabello

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